Comunismo, verdadeira aberração!!!!

[…] Nos anos vinte-quarenta, o comunismo estigmatizou violentamente o terror praticado pelos regimes fascistas. Um rápido exame dos números mostra, uma vez mais, que as coisas não são assim tão simples. O fascismo italiano, o primeiro a entrar em acção e que se reivindicou abertamente como “totalitário”, encarcerou, sem dúvida, e muitas vezes maltratou, os seus adversários políticos. No entanto, raramente foi até ao assassínio e, em meados dos anos trinta, havia em Itália algumas centenas de presos políticos e várias centenas de confinati – colocados sob residência vigiada nas ilhas -, porém, é verdade, dezenas de milhares de exilados políticos.

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Até à guerra, o terror nazi visou alguns grupos; os opositores ao regime – principalmente comunistas, socialistas, anarquistas, certos sindicalistas – foram abertamente reprimidos, encarcerados em prisões e sobretudo internados em campos de concentração, submetidos a um regime severo. No total, de 1933 a 1939, cerca de 20 000 militantes de esquerda foram assassinados após julgamento ou sem julgamento nos campos e prisões; sem falar dos ajustes de contas internos do nazismo, como a Noite dos Facas Longas, em Junho de 1934. Outra categoria de vítimas votada à morte foram os alemães que não correspondiam aos critérios raciais do “ariano alto e louro” – doentes mentais, deficientes físicos, velhos. Hitler decidiu-se a passar das palavras aos actos por ocasião da guerra: 70 000 Alemães foram vítimas de um programa de eutanásia por gaseamento entre o fim de 1939 e o início de 1941, até que as Igrejas protestaram e o programa foi suspenso. Foram os métodos de gaseamento então desenvolvidos que mais tarde viriam a ser aplicados ao terceiro grupo de vítimas, os Judeus.

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Até à guerra, as medidas de exclusão contra eles eram generalizadas, mas a perseguição teve o seu auge na Noite de Cristal – várias centenas de mortos e 35 000 internamentos em campos de concentração. É com a guerra, e sobretudo com o ataque contra a URSS, que se desencadeia o terror nazi, cujo balanço sumário é o seguinte: 15 milhões de civis mortos nos países ocupados, 5,1 milhões de judeus, 3,3 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos, 1,1 milhões de deportados mortos nos campos, várias centenas de milhares de ciganos. A estas vítimas somaram-se 8 milhões de pessoas obrigadas a trabalhos forçados e 1,6 milhões de detidos concentracionários que sobreviveram.

O terror nazi impressionou as imaginações por três razões. Em primeiro lugar porque afectou directamente os Europeus. Por outro lado, tendo os nazis sido derrotados e os seus principais dirigentes julgados em Nuremberga, os crimes que cometeram foram oficialmente designados e estigmatizados como tais. Finalmente, a revelação do genocídio dos Judeus foi um choque para as consciências pelo seu carácter aparentemente irracional, pela sua dimensão racista, pela radicalidade do crime.

O nosso propósito não é fazer aqui uma qualquer espécie de macabra aritmética comparativa, nem uma contabilidade em partidas dobradas do horror, ou uma hierarquia da crueldade. Os factos são teimosos, no entanto, e mostram que os regimes comunistas cometeram crimes que afectaram cerca de cem milhões de pessoas, contra os cerca de 25 milhões de pessoas do nazismo. Esta simples verificação deve pelo menos incitar-nos a uma reflexão comparativa sobre a similitude entre o regime que foi considerado a partir de 1945 como o mais criminoso do século e um sistema comunista que conservou, até 1991, toda a sua legitimidade internacional, que ainda hoje está no poder em vários países comunistas e que continua a ter adeptos em todo o mundo. E mesmo se muitos partidos comunistas reconheceram tardiamente os crimes do estalinismo, não abandonaram, na sua maioria, os princípios de Lenine e não se interrogam sobre a sua própria implicação no fenómeno terrorista.

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Os métodos postos em acção por Lenine e sistematizados por Estaline e pelos seus émulos não só recordam os métodos nazis, como muitas vezes os antecederam. Rudolf Hoess, encarregado de criar o campo de Auschwitz, e seu futuro comandante, fez a este propósito uma conclusão reveladora: “A Direcção da Segurança tinha feito chegar aos comandantes dos campos uma documentação pormenorizada sobre os campos de concentração russos. Com base no testemunho de alguns evadidos, as condições que neles reinavam eram expostas em todo o pormenor. Sublinhava-se particularmente que os Russos aniquilavam populações inteiras obrigando-as ao trabalho forçado”. No entanto, o facto de o grau e as técnicas da violência de massa terem sido inaugurados pelos comunistas e de os nazis terem podido inspirar-se neles não implica, a nossos olhos, que se possa estabelecer uma relação directa de causa e efeito entre a tomada do poder pelos bolcheviques e a emergência do nazismo.

Em finais dos anos vinte, a GPU (nova designação da TCHEKA) inaugurou o método das quotas: cada região, cada distrito, tinha a obrigação de prender, deportar ou fuzilar uma certa percentagem de pessoas pertencentes aos estratos sociais “inimigos”. Estas percentagens eram centralmente definidas pela direcção do Partido. A loucura planificadora e a mania estatística não atingiram apenas a economia, apoderaram-se também do domínio do terror. Em 1920, depois da vitória do Exército Vermelho sobre o Exército Branco, na Crimeia, apareceram métodos estatísticos, senão mesmo sociológicos: as vítimas são seleccionadas segundo critérios precisos, estabelecidos com base em questionários aos quais ninguém pode furtar-se. Os mesmos métodos “sociológicos” serão postos em prática pelos soviéticos para organizar deportações e liquidações maciças nos Estados bálticos e na Polónia ocupada em 1939-1941. O transporte dos deportados em vagões de gado deu origem às mesmas “aberrações” que no caso nazi: em 1943-1944, em plena batalha, Estaline mandou desviar da frente milhares de vagões e centenas de milhares de homens das tropas especiais do NKVD para assegurar no breve prazo de alguns dias a deportação dos povos do Cáucaso. Esta lógica genocidária – que consiste, para referir o Código Penal francês, na “destruição total ou parcial de um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, ou de um grupo determinado a partir de qualquer outro critério arbitrário” – aplicada pelo poder comunista a grupos designados como inimigos, a fracções da sua própria sociedade, foi levada ao paroxismo por Pol Pot e pelos seus khmers vermelhos.

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[…] Que se sabia sobre os crimes do comunismo? Que se queria saber? Por que razão foi preciso esperar pelo fim do século para que este tema acedesse ao estatuto de objecto de ciência? Porque é evidente que a análise do terror estalinista e comunista em geral, comparada com a análise dos crimes nazis, tem um enorme atraso a recuperar, apesar de no Leste se assistir a uma multiplicação destes estudos.

Neste ponto, não podemos deixar de ficar impressionados por um forte contraste. Os vencedores de 1945 colocaram legitimamente o crime – e em particular o genocídio dos Judeus – no centro da sua condenação do nazismo. Numerosos investigadores no mundo inteiro trabalham há décadas nesta questão. Foram-lhe consagrados milhares de livros, dezenas de filmes, alguns dos quais muito célebres – em registos muito diferentes, Noite e Nevoeiro, ou Shoah, A Escolha de Sofia ou a Lista de Schindler. Raul Hilberg, para referi-lo apenas a ele, centrou a sua obra maior na descrição pormenorizada das modalidades de assassínio de judeus no III Reich.

Ora, a questão dos crimes comunistas não suscitou quaisquer iniciativas deste género. Enquanto os nomes de Himmler ou de Eichman são conhecidos no mundo inteiro como símbolos da barbárie contemporânea, os de Dzerjinski, de Iagoda ou de Iejov continuam ignorados pela maior parte das pessoas. Quanto a Lenine, Mao, Ho Chi Mihn e até Estaline, sempre tiveram direito a uma surpreendente reverência. Um organismo de Estado francês, o Loto, teve inclusivamente a inconsciência de associar Estaline e Mao a uma das suas campanhas publicitárias! Quem se lembraria de utilizar Hitler ou Goebbels numa tal operação?

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A atenção excepcional concedida aos crimes hitlerianos é perfeitamente justificada. Responde à vontade dos sobreviventes de testemunhar, dos investigadores de compreender e das autoridades morais e políticas de afirmar os valores democráticos. Mas porquê este débil eco, na opinião pública, dos testemunhos sobre os crimes comunistas? Porquê este silêncio embaraçado dos políticos? E, sobretudo, porquê este silêncio “académico” sobre a catástrofe comunista que afecta, há oitenta anos, cerca de um terço do género humano e quatro continentes? Porquê esta incapacidade de colocar no centro da análise do comunismo um factor tão essencial como o crime, o crime maciço, o crime sistemático, o crime contra a humanidade? Estaremos face a uma impossibilidade de compreender? Não se tratará antes de uma recusa deliberada de saber, de um medo de entender?

As razões desta ocultação são múltiplas e complexas. Funcionou, antes de mais nada, a vontade clássica e constante dos carrascos de apagar os vestígios dos seus crimes e de justificar o que não podiam esconder. O “relatório secreto” de Krushchov de 1956, que constituiu o primeiro reconhecimento dos crimes comunistas pelos próprios dirigentes comunistas, é também o de um carrasco que tenta simultaneamente mascarar e cobrir os seus próprios crimes – como patrão do Partido Comunista ucraniano no auge do terror – atribuindo-os exclusivamente a Estaline e alegando a obediência a ordens, ocultar a maior parte do crime – só fala de vítimas comunistas, muito menos numerosas do que as outras -, eufemizar esses crimes – qualifica-os de “abusos cometidos no tempo de Estaline” -, e finalmente justificar a continuidade do sistema com os mesmos princípios, as mesmas estruturas e os mesmos homens.

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[…] Confrontado com a propaganda comunista, o Ocidente deu durante muito tempo provas de uma cegueira excepcional, mantida simultaneamente pela ingenuidade face a um sistema particularmente retorcido, pelo receio do poder soviético e pelo cinismo dos políticos e dos grandes “homens de negócios”. A cegueira esteve presente no encontro de Ialta, quando Roosevelt entregou a Europa Oriental a Estaline contra a promessa, redigida em boa e devida forma, de que este organizaria o mais rapidamente possível eleições livres. O realismo e a resignação estavam presentes no encontro de Moscovo, quando, em Dezembro de 1944, o general de Gaulle trocou o abandono da infeliz Polónia a Moloch pela garantia de paz social e política, dada por um Maurice Thorez de regresso a Paris.

Esta cegueira foi reforçada, quase legitimada, pela crença, entre os comunistas ocidentais e muitos homens de esquerda, de que esses países estavam em vias de “construir o socialismo”, de que essa utopia que, nas democracias, alimentava os conflitos sociais e políticos se transformava, “lá”, numa realidade cujo prestígio Simone Weil sublinhou: “Os trabalhadores revolucionários têm a felicidade de ter por detrás deles um Estado – um Estado que dá à sua acção esse carácter oficial, essa legitimidade, essa realidade que só o Estado confere, e que ao mesmo tempo se situa demasiado longe deles, geograficamente, para poder desgostá-los”. O comunismo apresentava então a sua face mais clara: reclamava-se do Iluminismo, de uma tradição de emancipação social e humana, do sonho da “igualdade real” e da “felicidade para todos” inaugurada por Gracchus Babeuf. E era esta face luminosa que ocultava quase completamente a face das trevas».

Stéphane Courtois («Os crimes do comunismo», in «O Livro Negro do Comunismo»).

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