Apocalipse ou Renascer das Cinzas?

“Desde há milénios que, tendo-se o apetite de poder vindo a repartir em pedaços por múltiplas tiranias, pequenas e grandes, que vingaram aqui e ali, parece chegado o momento de por fim se concentrar, recolher, para culminar numa só, expressão dessa sede que devorou e devora o globo, termo de todos os nossos sonhos de poder, coroamento das nossas expectativas e das nossas aberrações. O rebanho humano disperso será reunido sob a guarda de um pastor implacável, espécie de monstro planetário diante do qual as nações se prostrarão, num pânico vizinho do êxtase. Posto de joelhos o universo, ter-se-à encerrado um capítulo importante da história. Depois, começará a desagregação do novo reino e o regresso à desordem primitiva, à velha anarquia; os ódios e os vícios asfixiados ressurgirão e, com eles, os tiranos menores dos ciclos que expiraram. Depois da grande escravidão, a escravidão qualquer. Mas, quando saírem de uma servidão monumental, os que lhe tiverem sobrevivido terão orgulho na sua vergonha e no seu medo, e, vítimas fora do comum, celebrar-lhe-ão a memória.”

E. M. Cioran
in “História e Utopia”, Bertrand Editora.

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