O Homem e a Técnica-Oswald Spengler.

“O empreendimento dirigido pela linguagem acarreta uma imensa perda de liberdade — essa secular liberdade do animal de rapina — tanto para o chefe como para os seus subordinados. Qualquer deles se torna, em espírito, corpo e vida, num membro de uma unidade superior. É a isso que se chama Organização: concentração da vida activa em formas definidas, em «estados propícios» aos empreendimentos, sejam eles quais forem. Com a acção colectiva dá-se o passo decisivo que transpõe a distância que vai da existência orgânica à existência organizada, da vida em grupos naturais à vida em grupos artificiais, da horda à tribo, à classe social e ao Estado.
E, suplantando os combates entre predadores isolados surgiu, então, a guerra como empreendimento organizado de tribo contra tribo, com chefes e seguidores, com incursões, emboscadas e batalhas organizadas. Do esmagamento dos vencidos emana a Lei que lhes é imposta. A lei humana é sempre a do mais forte, aquela perante a qual se tem de curvar o mais fraco; e essa lei, reconhecida e instituída duradoiramente entre os povos, constitui a «Paz». Uma paz semelhante prevalece também no próprio interior da tribo, de forma a que o seu potencial de força permaneça disponível para se utilizado contra o exterior; o estado é a ordem interna de um povo com vista aos seus objectivos exteriores. O Estado, como forma e como potencialidade, corresponde àquilo que é a história de um povo como actualidade. Mas a história, agora como sempre, é uma história guerreira. A política não passa de um substituto temporário para a guerra, substituto esse que utiliza armas mais intelectuais. E o conjunto de homens de uma comunidade confundia-se primitivamente com o seu exército. As características do animal predador livre transmitiram-se nos seus traços dominantes, ao povo organizado — esse animal de alma comunitária e múltiplas mãos. As técnicas de governação, da guerra e da diplomacia têm todas a mesma raiz e sempre manifestaram, ao longo dos tempos, uma profunda conexão interior.”

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“No início, falar era uma acção difícil; é lógico presumir, portanto, que apenas se utilizasse a fala quando estritamente necessário. Ainda nos nossos dias o camponês, comparado ao habitante das cidades, pode considerar-se um ser taciturno, enquanto que o citadino, tão habituado está a falar, que continuará a fazê-lo mesmo sem nada para dizer, por mera tagarelice e por pura ociosidade. A finalidade primeira da linguagem é desencadear uma acção, em conformidade com uma intenção e com o tempo, o lugar e os meios disponíveis. Que a frase tenha, então, uma estrutura clara e sem ambiguidades, é algo de necessidade primordial. A dificuldade de alguém se fazer compreender e impor a sua vontade a outrém está na origem de muitas técnicas gramaticais e sintácticas, técnicas que fornecem o modo adequado de mandar, perguntar, responder e, finalmente, técnicas de formação das palavras gerias; e todo este conjunto não se baseou nas intenções ou desígnios teóricos, mas pragmáticos. O papel desempenhado pelo pensamento teórico, nos primórdios da linguagem, durante a formação da linguagem brotava das necessidades práticas, como derivante do «pensamento manual».”

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“O ódio, o sentimento mais rácico e autêntico entre todos, no predador, implica respeito pelo adversário. É inerente ao ódio o reconhecimento da igualdade, no plano anímico, entre opositores. Quanto aos seres inferiores, por esses apenas se sente Desprezo. E esses seres desprezados tornam-se em Invejosos. Em todos os contos populares primitivos, em todos os mitos deístas, em todas as lendas heróicas, surgem tais temas. A águia apenas odeia os seus semelhantes, não inveja ninguém. Despreza, porém, muitos seres, talvez até todos os que lhe não são iguais. O desdém lança sempre o seu olhar de cima para baixo. A inveja, essa, dirige o seu olhar para cima. São estes os dois sentimentos historicamente universais da humanidade organizada em classes e estados. E os seus membros pacíficos, na sua raiva impotente, esbracejam entre as grades da jaula onde todos, conjuntamente, estão encerrados. Nada os pode livrar deste cativeiro e suas consequências. Sempre assim tem sido, sempre assim será… ou então, tudo deixará de existir. Ter em conta esta situação ou, pelo contrário, ignorá-la, são posições altamente diferenciadas. Mas querer modificá-la, é impossível. O destino do homem segue o seu curso e tem de cumprir-se.”

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“O homem furta à Natureza o privilégio de criar. O próprio «livre-arbítrio» é uma aberta atitude de rebelião. O homem, como criador, tem ultrapassado os limites da Natureza, cada uma das suas criações mais se distancia e se apresenta hostil para a Natureza. Assim se compõe a sua «História Universal», narrativa de uma cisão fatal, que progressivamente se vai acentuando, entre o Homem e o Universo, narrativa da acção de um rebelde que, liberto dos elos maternais, chega a levantar a mão contra a sua própria Mãe.
Eis como se inicia a tragédia humana, uma vez que a Natureza é indubitavelmente a mais forte. O homem não cessa de estar dependente dela, porque a Natureza, a despeito de todos os esforços do homem continua a tudo englobar no seu seio. Todas as culturas superiores são derrotas. Há raças inteiras que subsistem, totalmente enfraquecidas e aniquiladas, sujeitas à perda do poder espiritual, à esterilidade, semelhantes a cadáveres juncando o campo de batalha. A luta contra a Natureza é uma luta sem esperança; apesar disso, o homem irá prosseguir nela até ao fim.”

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“O que é a verdade? Para a multidão é aquilo que continuadamente lê e ouve. Uma pequena gota perdida pode cair algures e reunir terreno para determinar “a verdade”, mas o que obtém é apenas a sua verdade. A outra, a verdade pública do momento, que é a única que interessa para resultados e sucessos no mundo dos factos, é, hoje em dia, um produto da imprensa. O que a imprensa quer torna-se verdade. Os seus dirigentes evocam, transformam, permutam verdades. Três semanas de trabalho da imprensa, e a verdade passa a ser reconhecida por toda a gente.”

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«O optimismo é cobardia. Nascidos nesta época, temos de percorrer até ao fim, mesmo que violentamente, o caminho que nos está traçado. Não existe alternativa. O nosso dever é permanecermos, sem esperança, sem salvação, no posto já perdido, tal como o soldado romano cujo esqueleto foi encontrado diante de uma porta de Pompeia, morto por se terem esquecido, ao estalar a erupção vulcânica, de lhe ordenarem a retirada. Isso é nobreza, isso é ter raça. Esse honroso final é a única coisa de que o homem nunca poderá ser privado.»

Oswald Spengler

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Alexandre Sarmento Written by:

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