A República vista por Fernando Pessoa.

«Quais foram, porém, os efeitos esperáveis da aplicação a um país de um sistema político inaplicável a ele, estrangeiro a ele, e por uma classe ineducada para governar? Por a classe ser ineducada para governar, a ruína da administração; por querer governar reformando, ou seja sem capacidade de governar administrando, a derrocada e o caos político; por ter que governar com princípios estrangeiros a viciação do carácter nacional; por ter que governar inadaptadamente, a sua radicação em oligarquia — isto é, em minoria governante governando […] fim da relação com as necessidades nacionais e as solicitações da continuidade governativa da vida pátria. Quando, porém, uma classe que obtém o poder passa a governar só negativamente e a construir só fortuitamente, sem apoio em nenhuma tradição, nem suporte em nenhuma força do povo, passa daí a pouco a governar só por governar; passando a governar só por governar, passa a governar só em seu proveito, primeiro político, depois pessoal. Um regimen implantado nas condições de um constitucionalismo tem fatalmente que acabar por dar o que dará.»

Nenhum partido podia reagir senão corruptamente!!!

«Deu-se a reacção. Mas quem reagia? Criaturas das mesmas classes que governavam. Criaturas, portanto, com a mesma hereditariedade, vivendo no mesmo meio que os governantes. Criaturas, portanto, moral e intelectualmente idênticas a eles, pois seria o maior dos milagres se, com idêntica hereditariedade e com idêntico meio fossem diferentes. Um ou outro reagia em virtude de […] e carácter, de legítima e honesta indignação moral. Mas nenhum partido podia reagir senão corruptamente, porque, quando uma sociedade é corrupta, pode haver, e há, indivíduos que o não são; mas não há agrupamentos que o não sejam, ou, se os há, não podem ter acção social, pois só corruptamente se pode agir numa sociedade corrupta. Um partido político, a ser são, tende a não agir, o que é uma contradição com o próprio conceito de partido político; a agir terá de se integrar nos modos de acção do meio, tinha, na expressão mais moral, que se adaptar ao meio.»

Fernando Pessoa
in “Sobre a República”, Ática.

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