O fim da Europa, Plano Kalergi em acção!!!

 

Temos neste momento uma Europa condenada a um desmembramento a curto prazo fruto do transnacionalismo parido pela Segunda Guerra Mundial, tendendo a anular as nacionalidades, por arrasto assistimos à condenação de todo e qualquer nacionalismo, assacando a esse mesmo nacionalismo a origem de todos os atritos e de todos os confrontos. Quem fez uma leitura, ou mesmo adivinhou, talvez pela sua lucidez notável e teve capacidade para entender aquilo que se preparava, o que estava em curso, foi o sábio do ocidente, Oliveira Salazar, atente-se a estas palavras,«do alto de fortalezas erguidas por gigantes em séculos de esforços»(1).

Oliveira Salazar que arrisco dizer, foi o melhor estadista e diplomata do século XX, foi como que um profeta, prevendo exactamente os efeitos do projecto europeu, sabendo os verdadeiros propósitos e sabendo as implicações que a federação europeia teria como influencia na própria independência das nações. Deixo-vos aqui alguns textos memoráveis que muito podem desvendar sobre a forma de estar do estadista e da forma genial como sentia as mudanças de um mundo em convulsão.

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«A política de uma Nação não é conduzida por assim dizer em espaço livre, mas no condicionalismo determinado pela coexistência com outras Nações. O aumento geral da população no globo, a distribuição do trabalho no Mundo, como a extrema rapidez das comunicações tornam os povos estreitamente dependentes quanto aos seus meios de vida, mas uns mais que outros, poucos existindo dotados de aptidões e recursos que lhes permitam libertar-se mesmo onerosamente da dependência de qualquer condicionalismo exterior. Na complexidade da vida moderna vieram ainda enxertar-se, nos motivos de dependência e influência natural, outra causas de dependência ou servidão, abusivas pela sua origem e perniciosas nos seus possíveis resultados. Umas e outras dependências diminuem a liberdade dos Estados, mesmo quando não façam violência à sua vida ou atinjam a sua integridade. Mas não falamos destas últimas.

Sem dúvida, a interdependência quando em domínios vitais, impõe a colaboração que pode estabelecer-se plurilateralmente por duas formas diversas: ou partir da Nação como unidade integradora dos seus próprios interesses, ou partir destes directamente para a organização internacional. É esta segunda modalidade a que parece ter hoje preferência, não no domínio das aplicações, ainda na verdade restritas, mas no ambiente político universal. Ela é aliás a mais conforme com certo afrouxamento do princípio nacionalista no Mundo. Eu, porém, creio que a organização internacional de grandes interesses terá muito maior viabilidade e eficácia se feita por escalões, um dos quais o nacional se afigura imprescindível, mesmo porque é este o processo de evitar a sobreposição de autoridades independentes dos Estados e o desconhecimento da autoridade destes para organizar equilibradamente o conjunto dos interesses da Nação» (22 de Novembro de 1951) (2).

«Sucederam em poucos anos factos cuja génese e desenvolvimento costumam demandar séculos. Vivemos crises – financeiras, económicas, políticas, e sofremos guerras – civis, internacionais, intercontinentais, talvez as mais sangrentas e bárbaras de toda a história humana.

Modificou-se a estrutura dos continentes: a Europa cindiu-se, diminuiu-se, enfraqueceu-se; as Américas enriqueceram, fortaleceram-se, aumentaram de coesão; a Ásia insurgiu-se contra o primado civilizador do Ocidente e procura consolidar a independência alcançada, sob a direcção de algum dos seus povos: o Japão? a China? a Índia? a própria Rússia? a África agita-se desde Suez ao Atlas, desde o Mediterrâneo ao Cabo da Boa Esperança – ao norte para liquidar, sem saber como, as situações herdadas do passado, por toda ela sob os ventos revoltos que sopram com a ousada pretensão de acordá-la de um sono secular. Destas subversões, na maior parte catastróficas, resultou ruírem tronos, desaparecerem impérios, afundarem-se nacionalidades, surgirem novos Estados, alterarem-se as posições de força e sentir-se a necessidade de buscar novo equilíbrio em combinações diferentes.

Fizeram-se nos campos político e económico as experiências mais ousadas, umas com sequência, abortadas outras em grandes insucessos. Viram-se governos totalitários defendidos pela razão e a vontade do povo e viu-se chamarem-se populares governos de clara origem e essência minoritária. Presenciou-se em plena acção o socialismo das nacionalizações e dos racionamentos, enquanto o comunismo alastrava por vastas zonas do Mundo. Assistiu-se à morte do liberalismo económico e viram-se os regimes democráticos tenteando o caminho, perante a necessidade de disciplinas drásticas impostas pelos novos tempos. Presenciou-se um novo surto de suspeito humanitarismo contra a posse dos territórios coloniais, ao mesmo tempo que o estabelecimento em vasta escala de regimes de submissão e colonização sobre nações civilizadas e livres. Verificaram-se migrações forçadas de povos, maiores que as dos tempos bárbaros, trocas de populações, massacres em massa para solução de pretensas dificuldades políticas. Foi chamada a inteligência a legitimar as quebras da moral, bem como os colapsos da legalidade e da justiça; criminosos arvoraram-se em juízes e condenaram as pessoas de bem.

São tempos apocalípticos os nossos, época de regressão ou de transição violenta em que se abalam os alicerces antigos antes de estarem abertos ou consolidados aqueles em que se supõe dever assentar a cidade nova. De tão grandes convulsões sentem-se repercutir os efeitos tanto nas grandes massas como no escol social. A consciência da insegurança do que há de mais caro ou mais necessário na vida – ideias e afectos, sociabilidade e ordem, instituições e bens – criou nos espíritos um estado de insatisfação, de angústia, de ansiedade. É uma doença geral que paralisaria mesmo a vida e o trabalho, se não fosse o instinto de viver e a necessidade do trabalho para levar a vida. Nada de estranhar que por quase toda a parte os homens pareçam inferiores aos acontecimentos e que, em vez de enfrentá-los, se sintam tentados a confessar, vencidos, esmagados por eles, a sua incapacidade de os dirigir. E tudo em vinte anos; que poder de destruição e de anarquia o destas forças incontroladas» (22 de Novembro de 1951) (3).
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«Ao pedir um Estado capaz de definir uma política, nós partimos do pressuposto de que ele é livre, primeiro para se organizar e depois para determinar a sua vida interna e a sua vida de relações. Ao exigir do Estado que realize a política que definiu, pressupõem-se nele requisitos orgânicos e razoável independência em relação ao condicionalismo exterior. Estes problemas podem dizer-se redutíveis a este outro – saber, no mundo contemporâneo e dada a interdependência das sociedades civilizadas, qual o âmbito deixado à autodeterminação dos Estados.

Ouve-se falar muito na força das ideias, para significar que estas se generalizam e acabam por impor-se à inteligência e à conduta dos homens, e quem diz dos homens diz naturalmente dos Estados, impelidos assim a uma tal ou qual uniformidade de orgânica e de doutrina. Ora, fora do jogo de alguns conceitos universais, o asserto é sobretudo exacto quando não há em relação a umas ideias outras de igual mérito que se lhes oponham. Assim a inaptidão que está a verificar-se na Europa Ocidental de criar, acreditar, viver ideias políticas ou sociais suas, pode conduzir-nos neste século a uma espécie de colonização mental da parte dos dois maiores poderes em presença – a Rússia e a América do Norte. E, se assim for, pode augurar-se que, seja qual for o país afinal dominante nessa influência, o que chamamos a nossa civilização ou será destruída ou sofrerá profundamente nalguns dos seus elementos essenciais. A passividade, o espírito fatalista com que a Europa se dispõe a ser qualquer coisa diferente dela mesma, confrange os espíritos menos apaixonados pela sua milenária cultura. E eu não vejo outra defesa que não seja partir do princípio de que na vida as coisas não têm fatalmente de ser isto ou aquilo, de que a vontade é a suprema criadora da História, e apelar para a contribuição que pode esperar-se da índole particular de cada povo e da seiva da suas melhores tradições, em vez de abafar-lhes a força criadora do génio sob o peso de importações alheias.

As tendências para a uniformização da orgânica dos estados têmo-las visto umas vezes nascer como fruto pouco amadurecido de exaltações sentimentais, outras do espírito de solidariedade partidárias e outras ainda das imposições de uma hegemonia política. Em qualquer caso devemos considerar essas tendências contrárias aos ensinamentos da experiência, à índole dos povos e aos seus interesses. Elas são nalguns casos a máscara de abusiva intervenção nos negócios internos e na vida das Nações, com a postergação de uma norma de conduta internacional, condição de colaboração pacífica.

Quando se pensa que o Estado é a primeira barreira defensiva em face de todos os factores de corrupção ou perversão da comunidade que representa, pode fazer-se a ideia do que a possibilidade prática e o direito efectivo de se organizar livremente representam para a saúde moral dos povos e para a sua independência. Não duvido um momento de que estamos na boa razão, na linha de defesa da civilização ocidental e do melhor interesse da Nação portuguesa ao reivindicar o direito de nos organizarmos segundo as nossas concepções, de fazê-lo segundo as nossas necessidades e índole, prestando aos mais o contributo, embora modesto, da nossa experiência. As instituições que podem viver, apesar da incompreensão que por vezes as cerca, têm pelo menos o valor e o significado da sua própria durabilidade» (22 de Novembro de 1951) (4).

«No conjunto dos sucessos a que assistimos, há destruições sem conto e também esboços de novas construções; há acidentes de tempo e de lugar e também fenómenos com tendência a uma expressão duradoira nas sociedades humanas; há concepções ultrapassadas da vida e também o romper de amarras indispensáveis da disciplina social; há ainda, finalmente, embora obscurecido pelo fumo das paixões e pela atrocidade das lutas, o homem na constância da sua natureza, tal como o conhecemos ou adivinhamos desde o alvor dos tempos. Então o problema está em não se deixar perturbar pela avalanche dos acontecimentos indecisos ou contraditórios, e em descobrir nuns casos e escolher noutros as linhas mestras da melhor construção futura» (22 de Novembro de 1951) (5).
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«Parece-me que tudo que se tente [no] sentido [dos projectos de União Europeia] não tem grande viabilidade. Somos demasiado velhos – os europeus – para que nos não conheçamos uns aos outros! É possível que o tentado entendimento entre a França e a Alemanha, quanto ao ferro e ao carvão, crie um tipo de colaboração que seria, eventualmente, uma base para os estudos de uma estrutura continental europeia, nos campos económicos e de redistribuição de mercados. Mas a federação de tipo político, com abdicação das velhas soberanias, num figurino americano inadaptável ao Velho Continente – é mais uma teia de aranha que o sopro das realidades desfaz.

“Colaboração, sim, ampla e compreensiva, é uma necessidade e parece, felizmente, uma tendência segura”» (10 de Agosto de 1950) (6).

«Não é, porém, preconceito racial a verificação de um facto histórico – qual a marcada superioridade do europeu, na tarefa civilizadora, entre todos os povos da Terra. Desta Europa gerada na dor das invasões, sacrificada em guerras intestinas, curtida no trabalho insano, revolvida a cada passo por avalanches de ideias e revoluções que se assemelham a furiosos temporais, descobridora, viajeira, missionária, mãe de nações, desta Europa simultaneamente trágica e gloriosa ainda hoje se pode asseverar que mantém o primado da ciência e das artes, utiliza no mais alto grau os segredos da técnica, conserva o instinto de afinar as instituições e de sublimar a cultura e é detentora de incomparável experiência política. Não esquecemos o que se deve a outros na criação artística, esplendor literário, subtileza de filosofias aqui e além criadas e desenvolvidas; mas só da Europa se pode afirmar que criou, sob inspiração cristã, valores universais, generosamente, gratuitamente postos ao dispor do Mundo, na sua ânsia de transplantar civilização – Cada um de nós deveria sentir o orgulho de se afirmar europeu.

Seria no entanto desrazoável fechar os olhos à crise da Europa no presente momento: devastada, empobrecida, dividida, moralmente desfeita, corroída pelo desânimo, a braços com uma perigosa desorientação mental e o claro declinar das virtudes em que se formou, muitos perguntam se não são estes sintomas da decadência e se esta não será definitiva: finis Europae» (25 de Julho de 1949) (7).

(1) Oliveira Salazar, «Duas Palavras de Prefácio», in Discursos e Notas Políticas, II, 1935-1937, Coimbra Editora, 2.ª edição, 1945, XXIII.

(2) In J. P. D’Assac, O Pensamento de Salazar. Extraído dos seus Discursos, Companhia Nacional Editora, 1952, pp. 168-169.

(3) Ibidem, pp. 169-170.

(4) Ibidem, pp. 170-172.

(5) Ibidem, p. 172.

(6) Ibidem, p. 167.

(7) Ibidem, pp. 167-168.

 

Alexandre Sarmento

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