Agostinho da Silva, ele próprio…

Pode começar…

Então, para começar pelo princípio, o bom é ir à Itália e ver quem era o Joaquim de Fiore e o que ele depois acabou por exportar para Portugal, sem o pensar, provavelmente, não é? O Joaquim de Fiore, ou Flora, como acho que se pode dizer em português, era um abade beneditino, já da reforma de S. Bernardo, portanto, já virado para uma certa concepção da Igreja, uma certa concepção de liberdade, que, provavelmente, não havia antes, e começou a pensar qual seria o verdadeiro tempo, o significado do tempo, na concepção da Trindade. É evidente que ele, como abade beneditino, ele aceitava que as três pessoas da Trindade são contemporâneas, são co-eternas, para dizer tudo. Mas simultaneamente achava que, se por um lado, Deus é o poderoso de tudo, também deveria ter poder e experiência do próprio tempo misturado com a Eternidade. Por outro lado, havia um texto em que ele se baseava, em que o homem tinha sido criado por Deus à sua imagem e semelhança. Ora, uma das características que muitas vezes o prende, é exactamente essa concepção do tempo. Então, pareceu ao Joaquim de Fiore, ou de Flora, por isso tudo, que devia ter havido três Idades na Eternidade e três Idades, suas contemporâneas, no mundo para o homem. As três Idades na Eternidade seriam contemporâneas umas das outras, as três Idades no mundo para o homem, essas dispunham-se segundo uma ordem de tempo. Teria havido para o homem, portanto, uma Era do Deus Pai, uma Era do Deus Filho e haveria, possivelmente, uma Era do Espírito Santo. A Era do Pai, do Criador do mundo, do legislador fundamental para a humanidade, essa Idade havia, para o Joaquim, o nosso abade, na Bíblia, no Velho Testamento. Era a crónica de tudo o que se tinha passado enquanto reinava no mundo do Deus Pai. Mas ele, abade, já não estava nessa Idade, já se tinha passado à Idade do Cristo, de que ele era abade, de que ele era sacerdote. Mas achava ele que, se a outra, a primeira Era, tinha sido uma Era de legislação e de legalização do mundo, a segunda, a de uma consolação para o homem, dado o sofrimento que lhe podia trazer a empresa de pôr o mundo realmente a funcionar, digamos assim, para uma volta ao Paraíso, que, depois, o que devia haver na Idade do Espírito Santo, era uma Idade de pleno desenvolvimento do homem, plena expansão do homem, atingindo-se pontos de que nem se podia calcular a amplitude.

A Igreja, perante esta doutrina do nosso abade Joaquim, achou que havia um perigo: havia o perigo de as pessoas se entusiasmarem tanto com a possibilidade da Idade do Espírito Santo e se dedicarem já a essa Idade de tal maneira, que sofressem com isso o prestígio e as possibilidades da Igreja de Cristo. E, então, naturalmente, fizeram todo o possível, para Joaquim se desdizer, recuar nessa sua doutrina. Joaquim se recusou e o jeito foi, portanto, abandonar a Ordem.

Abandonando a Ordem, ele que estava habituado a uma companhia de gente que com ele concordasse, ou, pelo menos, que tinha de obedecer porque ele era o superior do mosteiro, ele se foi acolher junto de um grupo de sacerdotes, religiosos, que também tinham tido os seus problemas, e que formavam um grupo à parte. Esses religiosos eram franciscanos. Eram religiosos que queriam ser inteiramente fiéis a seu fundador, a seu patriarca, o S. Francisco, e que se recusaram, portanto, a obedecer ou a dar importância a uma ordem ou recomendação do Papa, no sentido de que os conventos passassem de pobres a ricos, fossem acumulando dinheiro, procurassem obter e guardar dinheiro.

O Papa entendia – e a nosso ver, muito justamente – que se tinha entrando numa época em que havia a desenvolver como que uma aparelhagem do mundo para a qual era preciso investir. E como a Igreja podia receber por intermédio dos conventos esse dinheiro, era bom que ele se acumulasse, para que o Papa pudesse colocá-lo na altura oportuna para o objectivo que lhe parecesse mais seguro, mais certo.

Mas eles achavam, os franciscanos, que o fundamental para eles não era importarem-se com o desenvolvimento do mundo, era importarem-se com o desenvolvimento da sua própria alma e da alma dos outros, e que, até, portanto, a obrigação deles era continuar fiel a S. Francisco, às ideias e aos exemplos que ele tinha dado, em lugar de obedecer à ordem do Papa.

Talvez, por desprezo, para troçar um pouco deles parecendo elogiá-los, as pessoas chamaram a esses franciscanos “franciscanos espirituais”. Isso é o que se passou, fundamentalmente, em Itália, quanto ao que nos interessa. Mas, naturalmente, o que se quer sobretudo saber é que importância isso teve para Portugal. O importante para Portugal deu-se na altura em que a Isabel, a princesinha de Aragão, veio casar a Portugal com D. Dinis. Aragão, nessa altura, tinha um rei que era, ao mesmo tempo, rei de uma parte oriental da península hispânica e rei de uma parte de Itália, das Duas Sicílias, onde, exactamente, vivia essa comunidade de franciscanos espirituais, junto dos quais se acolhera o Joaquim de Fiore.

Por outro lado, havia em Barcelona um médico – nesse tempo os médicos não se dedicavam só à sua sabedoria de cientistas, o que aconteceu depois a muito outro médico pelo tempo fora -, Arnaldo de Vilanova de Barcelona, que estava muito interessado nas notícias de pensamento teológico e de procedimento civil ou cívico resultante dessas ideias teológicas, dessa interpretação dos textos sagrados, das ideias do cristianismo. Teve correspondência com Isabel, directa ou por intermédio de outros agentes, de maneira que a princesa chegou a Portugal sabendo da ideia de Joaquim de Fiore de que haveria uma idade do mundo, a Idade do Espírito Santo, em que a humanidade se desenvolveria tão plenamente que talvez atingisse, como atingiram santos, alguma coisa do divino e, por outro lado, também a ideia dos franciscanos espirituais de que o fundamental era viver-se humildemente, sem ambicionar riquezas, etc.

Como D. Dinis lhes tinha dado como dote uma vila, a vila de Alenquer, é aí que surge a primeira festa, a festa do Espírito Santo, mas a festa do Espírito Santo dentro daquilo que se passou a chamar o culto popular do Espírito Santo, para distinguir o culto desse povo português do século XIII do culto canónico da Igreja segundo os preceitos emanados do Vaticano.

E o entusiasmo tomou o povo português. O povo português se achou completamente realizado, ele próprio, numa ideia pela qual, até aí, provavelmente não tinha dado. De vez em quando se sente isso. Haver alguma coisa que vem de fora de um país ou de fora de uma colectividade, e que abre as portas das pessoas para o interior de si próprias. É como se os portugueses tivessem dentro deles sem se expressar, inconscientemente, já essa ideia fundamental de ter que se caminhar para o futuro, mas para um futuro que era ao mesmo tempo do passado, porque, se o Espírito Santo que viria a reinar nessa terceira Idade era também colectânea do Pai e do Filho, ele pertencia a um passado de toda a Eternidade.

Só esse ponto seria muito interessante para pensarmos se a que se chama a saudade, sempre tão marcada no povo português, é a tal saudade que apenas lamenta a perda do passado, ou se, para os portugueses, essa saudade interior, de um tempo em que o homem tinha sido de alguma forma pleno, tivesse que ser a força construtiva de um Portugal, primeiro, depois de um mundo em que esse passado fosse reconquistado.

Quer dizer, para pôr as coisas à maneira, era como se houvesse dentro dos portugueses a ideia de que é possível ao homem redimir-se do pecado original, o que nos levaria a discutir que pecado original é esse, o que poderia trazer complicações, por agora, para essa ideia de que a primeira Idade é a do Deus Pai, depois a do Deus Filho e depois a do Espírito Santo.

De qualquer modo, o povo português se apaixonou por isso e aparece juntamente com uma festa comemorativa na Igreja, a festa que relembrava o aparecimento ou a bênção do Espírito Santo aos apóstolos reunidos juntamente com Maria, e, ao mesmo tempo, o povo português faz uma festa que não é uma festa comemorativa, é uma festa prospectiva para o futuro, é a festa em que os portugueses declaram como vai ser o tal mundo do Espírito Santo.

Os portugueses sempre adoraram o concreto, entendem o abstracto, mas procuram traduzir imediatamente em concreto. Portanto, o que se tentava saber não era que a pomba do Espírito Santo, a pomba da instabilidade da vida, do inesperado na vida do Espírito Santo pairara sobre os apóstolos e pairaria sobre todos os homens no mundo, aquilo que se tratava propriamente de saber é como é que seria a vida desses homens, como é que ela se organizaria quando reinasse o Espírito Santo no tempo.

Então, a festa deles tinha três pontos essenciais que a marcavam nitidamente:

Primeiro ponto: um problema! – Quem é que haveria de governar o mundo na altura do Espírito Santo? Naturalmente, a resposta teológica seria o próprio Espírito Santo… Sim! O próprio Espírito Santo! Mas quem é que na Terra poderia representar mais perfeitamente o Espírito Santo nessa ordenação do mundo? E, então, o que o povo português fazia era pegar num menino, numa criança, levá-lo à igreja e coroá-lo na igreja, ou o padre da igreja coroava o menino imperador do mundo. Naquela altura, naquele dia, em que a festa se fazia, a Idade de Cristo já estava ultrapassada para o povo português. O que havia era a Idade do Espírito Santo, e o menino viria a ser o imperador do mundo. Naturalmente, surge para nós uma pergunta: o que é que os portugueses ou a Isabel de Aragão viam no menino para ele ser o imperador do mundo na Idade do Espírito Santo? Nós podíamos dizer a inocência do menino, simplesmente hoje, com a psicologia da infância, a respeito da inocência dos meninos, essa ideia está um pouco desacreditada. Então, talvez possamos, porque a ideia nos interessa para o passado, como para o presente, como para o futuro, procurar outra razão pela qual nós possamos continuar com a ideia de que um governo de um menino seria óptimo para o mundo.

Então, pode-se propor – já o tenho proposto – a imaginação do menino. Uma das coisas que hoje nos pode surpreender é a capacidade de imaginar, que tem o menino, soluções para problemas que atrapalham os adultos, ou possibilidade de fazer perguntas para as quais as pessoas, mesmo as mais preparadas, dificilmente encontram respostas adequadas. Então, é a imaginação.

Mas recentemente me surgiu outra ideia: como se tratava dos franciscanos espirituais, quem sabe se se estava rememorando a ideia que tinha acudido ao S. Francisco de volta de África, de instituir a festa do presépio, de relembrar o nascimento de Jesus, pondo um menino deitado num berço, mostrando ali o nascimento de Cristo. Então, podia-se voltar, exactamente porque o Joaquim de Fiore era abade beneditino, podia-se voltar a uma ideia do patriarca da Ordem, do S. Bento. O S. Bento pôs como uma das regras dos seus mosteiros que quando alguém batesse à porta, fosse quem fosse, por mais miserável, mais desprezível que se apresentasse, ele fosse recolhido num mosteiro e tratado como a mais augusta personalidade que jamais ali lhe aparecera, porque, dizia ele, podia ser que fosse Cristo disfarçado.

E agora, com o menino no presépio, pois também se podia por a mesma ideia: é como se fosse Cristo renascendo. Ou, por uma ideia mais larga, que provavelmente entrou também nos países de S. Francisco: é como se fosse o divino reapresentando-se ao mundo, para que os homens entendessem o divino pela maneira por que ele se comportava. É possível, portanto, que os portugueses tivessem ido também por esse caminho verdadeiramente franciscano.

Segundo acto – Segundo acto da festa era que o menino, coroado imperador, ia à cadeia da terra, à prisão local, abria as portas e soltava todos os presos que lá estavam. Na Idade do Espírito Santo, diziam os portugueses, na Idade plena do mundo, a cadeia só poderá lembrar aos homens como uma das monstruosidades que houve no passado, juntamente com outras, que fizeram sempre parte da campanha da guerra que a humanidade moveu e move contra as carências que a podem atingir.

E para mostrar igualmente que, nessa altura, já os homens não poderiam apresentar como razão de muitos estarem na cadeia as dificuldades económicas do mundo, as pressões a que a economia que existiu a partir do tal pecado original, porque caiu bem que quando a Bíblia fala do pecado original, ela se está referindo ao pecado original que consistiu na passagem de homens que andavam pelo mundo em pequenos grupos colectando os alimentos de que precisavam sem, de nenhuma maneira, violar a natureza, sem a forçar a nada que não fosse natural. Simplesmente com o desenvolvimento demográfico, os alimentos que se podiam colher eram menos do que aqueles que o grupo, já muito maior, precisava para se alimentar. Então, é aí que surgiu a ideia de alguém guardar uma árvore, por exemplo, uma árvore de frutos, guardar a árvore para a poder multiplicar, para que primeiro, o fruto chegasse para ele e para o grupo em que ele estava incluído, excluindo o outro, e, depois, plantar mais árvores de que ele fosse o dono, de que ele fosse o administrador, e que pudesse repartir segundo os seus interesses, especialmente segundo os seus interesses.

É claro que na Bíblia o que aparece é o pecado original como sendo a utilização pela Eva, ou por ela e o demónio, ou pelos três (juntamente com Adão), o aproveitamento do fruto da árvore da sabedoria que devia pertencer a toda a humanidade e que, portanto, não poderia ser submetido ao poder de um só homem ou de um pequeno grupo de homens. Era de todos e, portanto, não poderia ser tocado, que o pecado original consistisse em pegar num fruto que era de todos e que só seria de todos se nunca fosse consumido por ninguém para um aproveitamento individual. Então, o português provavelmente achava que antes desse pecado original tinha havido uma situação no mundo de que ele talvez se lembrasse de uma forma inconsciente. Nós não temos bastante conhecimento de genética para saber se o DNA da genética tem ou não memória de tempos completamente ultrapassados. E que, portanto, havia ai um acicate, havia aí um estímulo o português poder avançar para o futuro, em que também não houvesse nenhuma espécie de pressão económica, em que os homens se vissem livres das deformações que podem sofrer por esse motivo e seria por isso que os portugueses instituíram também na festa um acto que era o de um banquete gratuito, alguém pagava, alguém fazia a despesa, colectividade ou indivíduos, mas o que se queria mostrar era que as pessoas podiam passar, quem viesse por ali, consumir o que houvesse para ser consumido sem pagar coisa nenhuma. Isto é, os portugueses declaravam nessa festa, nesse programa de futuro – porque insistem que a festa era prospectiva -, que quando viesse a Idade do Espírito Santo o mundo seria dirigido pelas qualidades inatas na criança – inatas -, qualidades que não fossem destruídas pela educação que se lhe desse ou pelas pressões económicas que houvesse sobre ela, que, portanto, a vida quotidiana devia ser gratuita e que, sendo as crianças levadas a ser crianças grandes em plena liberdade desse modo e não havendo as pressões económicas sobre ninguém, deixaria de existir o crime, ou as prisões seriam apenas uma absurda e violenta recordação do passado.

Então, nós hoje temos que ver dois pontos relativamente a isto: se isso se espalhou pelo mundo, se essa ideia dos portugueses foi ao mundo, é evidente! Começou assim que os portugueses navegaram; levaram o culto para as terras que iam descobrindo, e que, por não haver oposição local, podiam ser teatro de as festas se repetirem – nos Açores, por exemplo, depois no Brasil, e quando houve emigração açoriana para outras terras – daí a razão da festa de San Diego na Califórnia, ser a mais brilhante das festas que se faz quanto ao Espírito Santo. Mas temos um outro problema também: é que essas festas do Espírito Santo começam a diminuir e desaparecem de Portugal sem se chegar à primeira metade do século XVI. E, então, se pergunta naturalmente: porque razão é que isso aconteceu? É que é nessa altura que se dá em Portugal – e, de uma maneira mais geral, na Península – aquilo que eles chamam “a invasão da Europa”. Mas a Europa de que Europa? Daquela Europa que já estava formando, bastante bem organizadamente, o seu capitalismo que, repito aquilo que já tenho dito tantas vezes, era a única economia capaz de fazer avançar o mundo, até chegar ao ponto em que houvesse para se viver a ferramenta necessária para que todos os homens pudessem ter à sua volta um ambiente que lhes permitisse atingir o mais alto do seu próprio Espírito.

 

Por outro lado, e juntamente com esse capitalismo, a Europa trazia, também, um sentido de governo que não era o sentido de governo de Portugal, assim como o capitalismo europeu via oposto à economia comunitarista de Portugal, ou, até, à economia dos comuneros espanhóis, assim, também, vinha da Europa uma moda de governo centralista autoritário, completamente diferente do governo de coordenação que tinha sido sempre de Portugal: coordenação pelos reis, coordenação por monarcas de um conjunto de municípios que só podemos classificar plenamente de democráticos e republicanos. Por outro lado, a questão da educação: ao passo que as crianças em Portugal, dentro dos tais princípios de deixar a criança crescer livremente, as crianças se educavam pela experiência. Havia poucas escolas e elas não eram frequentadas, senão em casos muito excepcionais. E quando se tem tanto medo em toda a parte da Europa de lembrar que foram essas crianças analfabetas portuguesas que, crescendo depois, mas educadas no sentido de olhar bem o mundo, de escutar bem todos os seus ruídos, de absorver completamente todos os seus perfumes ou cheiros, que foi essa gente embarcada nos navios que foi fixando o que ia descobrindo no mundo, o que ia vendo pela costa de África junto da qual ia navegando, que foi acumulando toda aquela experiência e todo aquele conhecimento que, na volta à Europa, obrigou a pôr completamente de parte a Física do Aristóteles e obrigou a nascer aquilo a que se pode chamar a ciência moderna. E, quanto à teologia, o que é que sucedeu?

Havia nos portugueses essa teologia do Espírito Santo. Quanto a mim, a forma inicial de qualquer sentimento do divino ou de qualquer forma do divino, porque não podemos supor que, para os homens que percorriam em grupos fraternos, livres e alegres, a terra colhendo alimento, podia haver ideia de um Deus que lhes fosse legislador, vigilante, e juiz castigador se fosse necessário; e, tendo eles uma vida que lhes parecia completamente natural, que houvesse também a ideia de um Deus consolador que lhes vinha amenizar o que eles podiam sofrer na batalha contra carências que eles nunca travavam porque nunca tinham carências, essa ideia de um Deus legislador, e essa ideia de um Deus consolador, só pôde aparecer no mundo, efectivamente, quando se deixou de ser colector de alimentos para se ser produtor de alimentos. Aí, imediatamente, se viu em muita sociedade a ideia de Deus dessa forma.

Claro que, cada povo, segundo a sua psicologia, segundo a sua maneira de ser, segundo o local do mundo em que vivia, segundo o que eram os ideais da sua vida, se comportou de uma ou de outra maneira. Nós podemos ver em todas as religiões, por exemplo, na religião judaica, na Bíblia, podemos ver em tradições orientais, podemos ver na Grécia, formas diferentes de entender o divino. Para a gente da Índia e para outra gente do Oriente, o divino devia ser sobretudo o repouso absoluto, o deitar-se numa confiança completa procurando cada homem atingir o ser, o nada, um vazio absoluto, para plenamente repousar num divino que eles viam como tendo por ideal ou sendo idealmente, também, um vazio absoluto. Mas, por exemplo, os gregos olharam o divino de uma maneira completamente diferente. Pela sua própria psicologia, pelas características da natureza da paisagem na Grécia, o que eles gostariam era de haver na Terra um bailado de vidas, tão belo, tão variado, tão pleno, como havia no politeísmo que eles imaginaram, e coisa curiosa, assim que esse politeísmo passou para uma nação que era, fundamentalmente, jurista e militar, a dos romanos, logo o politeísmo mudou. Não há mais o alegre bailado, e o variado bailado de deuses e deusas; o que há é uma série de repartições públicas, de Estado organizado, de funções que cabem a este ou àquele deus, num retrato perfeito do que eram os romanos na Terra.

Para os portugueses, no entanto, havia essa saudade do Espírito Santo. Mas havia qualquer coisa ainda que opunha a Europa a Portugal nesse ponto teológico: é que os portugueses apreciavam o Espírito Santo além de tudo, porque era o aspecto divino do inesperado no mundo, do imprevisível, em que os portugueses tinham um grande interesse, provavelmente porque, dentro deles, a força maior que sentiam era essa paixão pelo inesperado, que lhes permitiria a eles mostrar toda a sua capacidade, todo o seu talento, de dar respostas improvisadas às perguntas em que ninguém tinha pensado.

Mas agora a Europa se lançava, e por intermédio dos navios portugueses, a Europa se lançava num empreendimento em que a paixão não devia ser pelo inesperado – pelo inesperado havia a curiosidade, naturalmente, o que se ia vendo -, mas o que interessava era prever tudo aquilo que pudesse dar segurança ao marinheiro que já não pilotava uma caravela de descobrimento, mas ia pilotando naus, ia dirigindo naus com bons porões para levar mercadorias fabricadas no Ocidente que pudessem ser trocadas pelas matérias-primas ou pela mão-de-obra que era preciso trazer da África ou do Oriente. Então, começa uma pressão – até pelo envio de imagens que podíamos dizer de pensamento oficial -, começa a chegar a Portugal uma quantidade de imagens em que o divino é apresentado de uma forma inteiramente ortodoxa. Deus Pai sentado no trono, como convinha ao Rei e ao Criador do universo, segurando a cruz em que gente incompreendida tinha crucificado Seu Filho, e, sobre o grupo, a pomba do Espírito Santo, marcando a identidade da natureza do Pai com a natureza do Filho.

 

Então, lentamente, todo esse culto foi sendo abatido. Passou a ser nos locais em que ainda era permitido a ter muito mais de folclore que muitas vezes a religião e até em certos aspectos, por exemplo no Brasil, como os africanos aproveitavam muitas vezes as festas e a boda gratuita para se embriagarem e fazerem uma série de desacatos, muitas vezes foi proibido que eles tomassem parte nas festas, ou foi limitado o acesso a elas, às pessoas que eram capazes de se comportar com mais decência nessa festividade. Simplesmente ficou sempre no povo português essa ideia de um futuro que ia assentar na natureza que eles sentiam em si próprios e que provavelmente estendiam também a todos os homens. Talvez compreendessem que era por razões de batalha, por estratégia, pelas necessidades impostas na tal guerra à carência, que era preciso abandonar um certo número de coisas, submeter-se a um certo número de limitações para que chegasse ao fim essa era de fabricar o mundo em que todo o homem tinha de servir, tinha de ser disciplinado para que um dia se chegasse a uma colectividade, em que a obrigação fundamental de cada homem era ser aquilo que era, aquilo que tinha nascido, marcando a sua individualidade, marcando a sua especificidade inteiramente no mundo.

Então, curiosamente, aparece aqui um problema que depois surge n’Os Lusíadas também. E é o problema das ligações íntimas dessa gente portuguesa com outros tão distantes como são aqueles chineses que foram ao mesmo tempo do Confúcio e do Lao Tzu. Do culto da virtude – podemos talvez dizer que esse é o fundamental do pensamento de Confúcio – e, depois, com Lao Tzu e o taoísmo, da ideia de que o importante para o mundo é que, um dia, os homens possam ser aquilo que realmente são sem se submeterem a nenhuma espécie de deformação.

E, coisa curiosa, se eu falo n’Os Lusíadas, é exactamente como parece: que Camões achou que a construção de Portugal, e depois a navegação, até se chegar a Oriente, até esse primeiro ponto do Oriente que foi Calecute, que não se poderia ter feito nada disso sem o culto da virtude. Quase se diria o seguinte: Camões seria confucionista, se eu aceitasse que era por causa da sua estada para os lados do Oriente que ele tinha tido conhecimento da doutrina e tinha dito, ele próprio, coisa curiosa, como os portugueses do lado de lá, sentiam a mesma coisa que sentiu Confúcio do lado de cá, que não pode atingir o empreendimento que se tem em vista senão pelo culto da virtude em todos os seus aspectos: pela lealdade ao compromisso, pela obediência a quem manda, etc. Mas logo que essa empresa está concluída, logo que os marinheiros voltam com a consciência de que fizeram tudo o que havia a fazer pelo tal culto da virtude para se poder alcançar a Índia, Camões os põe numa outra colectividade, em que eles não têm que ser mais nada senão o que são, e que n’Os Lusíadas aparece com a designação dada pelos seus leitores de “A Ilha dos Amores”. Ali, os marinheiros que desembarcam deixam de ser marinheiros, são apenas as pessoas que nasceram com toda a sua plenitude humana, e se revelam apaixonados por tudo o que é fenómeno. Mas, curiosamente, Camões avança com alguma coisa que os gregos não descobriram: os gregos sentiram também, que eles pelo amor que tinham à vida eram gente presa do fenómeno, mas quem é preso do fenómeno, quem está apaixonado por essa maneira pelo fenómeno, está preso pelo tempo e pelo espaço, que é exactamente do domínio do fenómeno. Mas Camões disse sem o dizer, os gregos não descobriram como é que isso pode ser ultrapassado, e na Ilha dos Amores os portugueses ultrapassam, livram-se dessa prisão, sabemos muito bem que os portugueses apreendem na Ilha dos Amores que podem saber o futuro e que podem estar também livres do espaço. Podem saber o futuro quando uma deusa lhes vem dizer como vai ser Portugal, sentem-se livres do espaço quando a mesma deusa lhes mostra ao longe toda a máquina do mundo fora da qual não existe nenhuma espécie de espaço. Então, o que é que ele diz como remédio aos gregos? Diz o seguinte: os gregos pensaram, parece, que todas as ideias que têm são fabricadas pela própria cabeça, nunca lhes surgiu a ideia, talvez, de que as ideias talvez pairem no mundo e entram na cabeça das pessoas quando elas deixam de ter tanta credibilidade em si próprias, quando elas põem em dúvida que seus cérebros sejam tão poderosos que podem fabricar essas ideias, e aceita que elas pairam, e, como às vezes eu digo, até cheguem à ideia de que é bom não pensar muito pela própria cabeça, estar disponível para que entrem nela as ideias que andam à volta, que podem ser muito mais interessantes, muito mais plenas, muito mais amplas, do que aquelas que podemos fabricar com o nosso próprio conteúdo dos crânios.

Então, talvez pudéssemos ter a ideia de que nesta gente portuguesa existem as duas maneiras de ser nítidas, disciplina absoluta, obediências completas, culto total da virtude, enquanto se tem que atingir um determinado fim de empresa que, no nosso tempo, é fazermos que o capitalismo em que vivemos de tal maneira se desenvolva que nos dê a possibilidade de depois descobrirmos esse Calecute novo, de ser a vida gratuita, como pensaram os portugueses e acreditaram os portugueses no século XIII, para que nós possamos abandonar-nos à ideia de ser nosso único dever, sermos na vida aquilo que realmente somos quando nascemos. Por outro lado, é extremamente interessante, quanto ao presente, vermos se estamos mais perto ou não desse ideal dos homens do século XIII, se os 600 anos que nos separam deles já nos dão garantias, que com uma multiplicação maior ou menor desses 600 anos para diante de nós, possamos atingir aquele fim que eles tiveram como ideal. Que nos libertemos da ideia de que o divino é mandar em nós, é para nos limitar, e tem que ser assim, enquanto estamos na guerra, e exactamente como o oficial comandante tem de limitar com a disciplina aquilo que os soldados normalmente faziam e fariam se ele os deixasse em plena vontade própria.

Por outro lado, é importante que se tenha também a ideia de que o ideal não é ficar continuamente nisso. Não é ir para diante no mesmo tipo de economia, mas que o ideal de todo o homem economista verdadeiramente acabe por desaparecer do mundo.

Então, o que me parece interessante fazer é pegar em cada um dos actos da festa e examinar se nesse sector estamos mais adiantados que os homens do século XIII ou não, e se estamos, portanto, com possibilidade de ter maior animação para que cheguemos no futuro, senão na totalidade, pelo menos muito perto daquilo que foi o ideal deles.

Reparemos no que sucede com os meninos: hoje já se está a atender a uma circunstância extremamente interessante no mundo, a de que será preciso, para realizar a mesma produção que temos hoje ou uma produção ainda maior, que será preciso muito menos quantidade de mão-de-obra humana, isto é, que haverá muita gente que tem em sua frente o tempo livre. Digo propositadamente o tempo livre para não dizer que se trata de desemprego, porque, na realidade, quando nós dizemos que há pessoas desempregadas apenas estamos a utilizar uma linguagem antiquada e que já não reflecte a realidade. Um homem só se pode dizer desempregado quando ainda existe o emprego e ele não está colocado nesse emprego. Mas o que acontece hoje é que uma quantidade enorme de coisas se pode fabricar sem que os homens apareçam nesse processo – inteiramente o fabrico entregue às máquinas. Então, muita criança, costumo eu dizer, já nasce reformada, já não vai ter por diante essa necessidade de trabalhar. Então, o que é preciso, na escolaridade que ela tiver, não é dar-lhe aquelas técnicas que levavam a ser um bom soldado de profissão. O que é preciso é que ela adquira meios de expressão daquilo que é a sua própria actividade. Digo, com exagero ou sem exagero, que toda a pessoa que nasce é poeta. Vem para fazer uma criação de alguma coisa que ainda não existe no mundo, em qualquer campo que seja. E, se se costuma pensar sobretudo no campo da poesia, pode-se aplicar ao campo de qualquer arte ou de qualquer ciência ou de qualquer outra espécie de actividade. É preciso que o poeta não seja preocupado nunca, não seja limitado nunca, com as prisões que há quanto à inclusão de sua própria poesia, e sobretudo termos como ideal que aquele que nasceu poeta disto, daquilo ou daqueloutro, não se mostre como poeta no que deixou criado. Seja ele próprio o poema que vem da sua criatividade. E temos em Portugal um exemplo extraordinário que é o de Fernando Pessoa. Toda a gente é capaz de caracterizar o Alberto Caeiro, ou o Ricardo Reis ou o Álvaro de Campos ou qualquer uma das muitas personalidades – personagens – em que pensou Fernando Pessoa. E é capaz de se dizer que de grande parte dos poemas de Fernando Pessoa é do melhor que existe na poesia portuguesa, mas ele fez outro poema mais extraordinário: foi ele ser ele próprio. O poema mais difícil de definir na obra de Fernando Pessoa é o próprio Fernando Pessoa. Ninguém é capaz de imaginar que personalidades novas apareceriam se ele não tivesse morrido de fome, porque foi, de facto, o que sucedeu, se não tivesse morrido de fome na idade em que faleceu e na altura em que desapareceu da vida.

Ele cuidou fundamentalmente de ser ele o poema e, por isso, se sacrificou perante as necessidades da vida que levam os outros homens a transformar-se no que não são e no que não deviam ser. Ele se dedicou completamente àquele poema que foi a existência dele próprio.

Então, já hoje começa a haver em todas as escolas a ideia de que se deve dar ao aluno meios de expressão na poesia, na pintura, na ciência, no pensamento filosófico necessários para que ele possa plenamente ser aquilo que é.

Por outro lado, é evidente que já hoje muita gente pode viver não trabalhando, tendo tempo livre. Quando uma economia está bem organizada e há os recursos suficientes no país em que se vive, todo o chamado desempregado, todo o homem de tempo livre, todo esse que participa da aurora do tempo livre, tem ao seu dispor os meios necessários para viver a sua vida quotidiana. E se ele por vezes desaparece da vida mais rápido que devia desaparecer, é porque a escolaridade que lhe deram quando era criança, enquanto jovem, não foi a bastante para ele afrontar o tempo livre. O homem vai descobrir que o tempo livre, se não há nele nenhuma ocupação, é um destruidor fatal e completo. E aí é que se tem que se distinguir aquilo que é trabalho daquilo que é ocupação. É ocupação aquilo que nasce dentro da pessoa como sua expressão, é trabalho aquilo que ele é obrigado a fazer como soldado do exército de produção que ainda existe e que vai existir ainda durante muito tempo. Mas como já pesa essa gratuitidade de vida para tantos, quando ela pode e vai aumentar nesse sentido, é evidente que a visão que podemos ter de futuro é de que um dia os homens terão tempo livre. E as pessoas perguntarão assim: «Mas se ninguém trabalha?…» Não! Porque o tempo livre dará para aparecer alguns poetas que já se revelaram no passado e que são capazes de procurar ocupações que para os outros representariam trabalho e para eles não.

Já havia muito o exemplo de Pessoa que, não tendo nenhuma obrigação de trabalhar, no entanto, passa as horas de actividade fazendo alguma coisa que para os outros é trabalho na medida em que são obrigados a executar essa tarefa. Por outro lado, também havia há muito o exemplo de Pessoa que é capaz, por gosto, por vocação íntima, de substituir a outra pessoa no trabalho que para ele seria uma obrigação e uma obrigação que o prejudicava e para ele não, para ele é uma revelação o prazer que lhe dá sentir o poema emanando de si próprio. Dou sempre o exemplo de todos aqueles que, sem serem obrigados a isso, iam viver em comunidades de leprosos, arriscados a apanhar a doença para não obrigar a não ir para lá aqueles que só iriam fazer uma coisa dessas por obrigação ou por necessidade de viver. Estamos, portanto, caminhando para situações em que essas coisas podem existir mais à larga.

 

 

E agora vem talvez uma reflexão final que é preciso pôr clara: é que se foram os portugueses os únicos homens, que eu conheço, que tiveram essa ideia da festa do Espírito Santo, de pensar toda essa futurologia, quem sabe se uma grande obrigação que pesa sobre nós não é de fazer que o Portugal actual, o Portugal do presente, atinja o mais possível nesses domínios para estar bem preparado para ser ele a continuar Portugal para o futuro e, mais alguma coisa, a ser ele, digamos, o missionário no mundo dessa ideia de que o fundamental é aproveitarmos tudo aquilo que é disciplina, que é obrigação, que é – volto à expressão – Confucianismo, nessa nossa maneira de economia e de vida, para chegarmos rapidamente, o mais rapidamente possível, ao fim dessa tarefa, e pularmos para a outra dimensão, de só termos como dimensão aquilo que nós próprios somos e somos capazes de ser.

E talvez outra reflexão: assim como se sabe que as galáxias no universo se afastam umas das outras a maior velocidade quanto mais distantes vão -, às vezes podemos pensar se aquela rapidez de acontecimentos que as pessoas estão actualmente notando no mundo não é alguma coisa de semelhante. Se à medida que a história humana vai caminhando para o futuro, que nem podemos pensar qual seja, se esse avanço para o futuro não vai tendo uma velocidade cada vez maior, e se quando muita gente está pensando, diante de acontecimentos recentes em soluções que são conversa barata e só serviriam para coisas inteiramente ultrapassadas, se não é pena que eles não tenham conhecimento dessas ideias dos portugueses para verem que têm de ser muito mais audaciosos e aproveitar que tudo aquilo que surge como alguma coisa que os atrapalha na sua reflexão e no seu programa de vida, não têm que aproveitar isso para montar a cavalo mais rápido ainda e atingirem o tal ideal que os portugueses queriam atingir: ideal na vida, ideal na criança, ideal no gratuito do quotidiano, ideal em que não temos mais essa coisa monstruosa que é uma prisão, ideal sobretudo ainda no plano do pensamento puro, no plano, para quem quiser, da metafísica, ou para quem quiser, da teologia. Se não temos que ver no divino, em que cada povo, segundo as suas funções e a sua psicologia, foi modelando a sua própria religião, senão temos que ver nesse divino, a que os portugueses chamaram o Espírito Santo, não temos que ver nisso o ponto fundamental, o alicerce de todas as religiões do mundo? E se não temos que pensar que são elas todas irmãs, que são elas formas de culto diferentes de um mesmo divino, exactamente como as línguas que existem no mundo são todas elas, na sua variedade, a expressão de uma natureza humana que não quer perder a capacidade de se revelar aos outros e de reflectir naturalmente sobre si própria? Então, os portugueses não só teriam tido esse ideal, de que os homens vivessem uma vida completamente livre, mas fizessem mais alguma coisa que tantas vezes falha, que amassem o diverso como sendo a expressão daquilo que é Uno em cada um. Hoje, quando alguém diz que ama alguma coisa ou alguém, realmente está como que a ver-se ao espelho, está a amar ou a pensar amar alguma coisa que é semelhante a ele, ao passo que essa ideia portuguesa poria como fundamental que amar o diferente e o vendo como um aspecto do Uno é que é realmente a mais alta expressão de amor, o que curiosamente iria ao encontro do que diz tanto a religião, ou que dizem tanto aqueles a que se chama ateus, porque não têm a sua divindade num aspecto personalizado ou bem marcado e até o põem como se fosse um nada absoluto. Se realmente não há que marchar para isso ao encontro de um pensador que foi mais poeta que pensador, ao encontro de Platão, que achava que aquilo que seria o fim de toda a vida era amar a beleza geral, pelo aproveitamento amoroso de tudo quanto é uma beleza particular.

 

(in Agostinho da Silva, ele próprio, Zéfiro, 2006, pp. 23-48).

 

 

 

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