O Portugal de Agostinho da Silva…

 

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Victor Mendanha – O que devemos fazer para enriquecer, espiritualmente, as nossas vidas?

Agostinho da Silva
O que interessa é ver de que maneira poderemos trazer à nossa vida aquilo que não veio. Os gregos possuíam a tal Mitologia e a Mitologia não se desenvolveu, pois aparece o Cristianismo a trazer a disciplina ao Mundo. Primeiro, sem a disciplina das legiões romanas e da burocracia romana – mesmo com todos os males de que sofria -, segundo, a disciplina marcada pelo pensamento cristão, não haveria a possibilidade de levar o Mundo ao ponto em que, efectivamente, está hoje.

V. M. – E a tal possibilidade, sonhada por Camões, de sermos plenamente homens e, ao mesmo tempo, livres do Tempo e do Espaço?

A.S. – Já lá chegaremos…

Vamos ficar na pluralidade da Mitologia grega, dos tais deuses e deusas, da tal malandragem que fazia o que queria no mundo? Não, porque o Cristianismo introduziu, nessa evolução, nesse progresso, um ponto fundamental quanto ao Ocidente – pois no Oriente as coisas foram de outra maneira – concluindo-se que o importante é pensar a Unidade do divino.

A vida plena do homem, quanto ao fenómeno e o seu interesse fundamental em atingir o Eterno, fora do Tempo e do Espaço, tem de ser posta não daquela maneira que os gregos a puseram, com a pluralidade dos deuses e das deusas, mas com a questão do Divino que se encontrou no Ocidente com a ideia de um Deus Todo-Poderoso, Omnisciente que criou o mundo e promove o seu desenvolvimento.

No Oriente, quando ali se pensou o Divino, chegaram fundamentalmente à conclusão, com Buda, de que o essencial do Mundo é alguma coisa à qual nós podemos chamar o Nada. Mas, na realidade, o que vem a ser o Nada? O Nada foi, sempre, a possibilidade de Tudo.

Então parece que, tendo o Ocidente chegado à ideia de um Divino Todo-Poderoso, Omnisciente, e tendo o Oriente chegado à ideia de o Divino ser o Nada, com a possibilidade de Tudo haver, talvez o esforço de pensamento e procedimento da Humanidade para o futuro seja esse, o de juntar as duas ideias.

Não será através do entendimento que ela irá atingir essa junção, pois torna-se logicamente impossível conseguir a união do Nada e do Tudo mas, apenas, pelo seu procedimento.

Isto é, portando-se ora como Nada ora como Tudo, exactamente como quando marchamos, avançando ora com o pé direito ora com o pé esquerdo…

Como lhe disse, não creio ser possível a qualquer espécie de Filosofia, a qualquer espécie de pensamento metafísico, juntar as duas coisas numa relação lógica mas torna-se viável pensar em procedimento humano.

No entanto, aceito a viabilidade das pessoas, quando iluminadas por esta ideia, começarem a portar-se, quando necessário, como aquelas que são capazes de Tudo e, quando é preciso, como aquelas que são capazes de Nada.

V. M. – Há, no Mundo, algo comparável a esse futuro comportamento ideal?

A.S. – Existe, agora, algo de interessante para observar, como a má consciência com que os japoneses estão a ser ricos. A vontade com que eles se atiram ao domínio do fenómeno, o espírito militar de Samurai com que se atiram à indústria.

Coisa curiosa e digna de meditação pois foi o arcabuz português, transportado pelos portugueses para o Japão, que permitiu a um senhor feudal, entre os muitos, vencer outro e outro senhor feudal, acabando por unificar o país, pondo todos os japoneses apostados num triunfo mecânico, num triunfo técnico sobre o futuro.

Isso foi conseguido por terem ido para a indústria com um espírito militar, um espírito de disciplina e ordem.

A.S. – O que lhes trouxe um bom nível de vida, o que já não é mau de todo…

A.S. – Trouxe-lhes a riqueza mas, como o seu pensamento fundamental era o de que o Divino é o Nada e que, como pessoas agregadas ao Divino, deviam fazer por isso, subitamente encontraram-se numa contradição por serem um dos países mais ricos do Mundo…

Estão a ter um procedimento curioso, procurando livrar-se do dinheiro dando grandes subsídios aos chamados países subdesenvolvidos, chegando a ajudá-los mais do que os norte-americanos, caso entre nas contas o produto nacional bruto dos dois países.

Ao mesmo tempo, procuram fazer com que os outros países ricos do Mundo, como os Estados Unidos da América ou a Alemanha Federal, comecem por acordar com os devedores desse Terceiro Mundo o não pagamento dos juros.

O Japão, apesar de ser um país oriental, orientado pelo conceito do Nada, chegou ao máximo a que poderia ter chegado o Ocidente onde existe e se persegue o conceito de Tudo, através do seu espírito fortemente militarista.

Agora, chegados ao máximo, os japoneses estão a encontrar a «parede» também encontrada pelos ocidentais: essa ofensa do Poder sobre a ideia de que o importante é o não Poder.

V. M. – Toda essa situação faz lembrar a filosofia das Ordens religiosas ocidentais.

A.S. –
Exactamente. Os monges ocidentais, esses as quem se deve a construção da Europa, tiveram a mesma ideia.

Os seus votos de pobreza, de castidade, de obediência, são votos de ser Nada, de se libertarem pelo Não Ser.

Por não terem coisas; por não possuírem pessoas prisioneiras através do afecto – substituindo o afecto pessoal pelo afecto por todos -, e não se terem sequer a si próprios, ficaram livres.

Sobretudo através do voto de obediência, que funciona como argumento principal porque, quando decido obedecer a outro estou a dar-lhe o que eu era, não procurando ser.

Provavelmente, é o voto mais difícil, por colocarmos a nossa natureza à disposição do outro, já que faremos o que nos for possível fazer mesmo contrariando a nossa personalidade.

Os japoneses que levaram ao máximo esse voto de obediência, agora estão atrapalhados porque têm o Poder na mão e vão ser obrigados a resolver o mesmo problema posto a todo o Mundo.

V. M. – A qual problema se refere?

A.S. – As pessoas julgam irem ser pagas as grandes dívidas internacionais deste país àquele ou daquele ao outro?

Se o Brasil deve 3 biliões e não sei quê e os Estados Unidos da América 5 biliões e não sei quanto, quem vai pagar as dívidas a quem?

Haverá uma altura em que já nem se saberá quem é o credor e quem é o devedor.

Só então o problema se irá resolver.

V.M. – Irá resolver-se politicamente?

A.S. – Por política, por pensamento político? Não creio muito nisso, sabe?

A situação é tão complicada como a textura da Terra, com as suas placas tectónicas que, de vez em quando, chocam umas com as outras, provocando um terramoto.

Então, poderíamos censurar o mundo dos engenheiros por não terem encontrado, ainda, as máquinas suficientes para evitar os terramotos, não deixando chocar umas placas com as outras.

Não fazemos essa censura por pensar tratar-se de uma atitude idiota, no entanto continuamos a censurar os políticos porque eles não arranjam as máquinas necessárias para evitar os terramotos políticos.

Os actuais problemas do Mundo são de tal ordem que excedem toda a capacidade humana de os pensar.

Não sabemos, por exemplo, como iremos resolver o problema de manter vivos os desempregados já que serão cada vez mais por uma razão muito simples: eles não são desempregados, o que desapareceu no Mundo foi o emprego.

Não poderei dizer não estar o meu casaco pendurado se não houver cabides, sucedendo a mesma coisa com o desemprego: se não existe emprego como pode o desgraçado estar desempregado?

V.M. – Qual vai ser a saída desse impasse?

A.S. –
O Mundo vai ter de os matar, deixando-os morrer, ou vai ter de os alimentar.

Quando optar pela segunda solução, o Mundo entrará num tipo de Economia completamente diferente. Já não se trata de uma economia de produção organizada mas, isso sim, de uma economia de distribuição organizada. Curiosamente, aquela que os portugueses criaram, na Idade Média, com o culto do Espírito Santo: o banquete gratuito na vida.

V.M. – Essas mudanças provocarão situações surpreendentes.

A.S. – Pois provocarão.

Por que é que os pais mandam os filhos para a escola? Porque sabem não haver outra forma de lhes arranjar emprego, que os empregos serão muito difíceis sem isso.

Mas se, agora, milhões de meninos já nascem reformados como passará a ser isso da instrução obrigatória e da escolaridade, tal como a temos, para preparar os meninos para as profissões?

O pensamento do Ministro da Educação Roberto Carneiro, quanto à necessidade de haver escolas que, ao mesmo tempo, possam dar capacidade de emprego para uns e liberdade para outros, através da instrução nas artes de que eles gostam – pode ser a agricultura, pode ser a pintura, pode ser a modelagem – é um pensamento certo.

V.M. – Não concorda com os tempos livres?

A.S. –
Toda a gente sabe ser, o tempo livre, o pior presente que um homem pode receber.

Suponhamos que se conseguia que todos os meninos tivessem, como agora se diz, sucesso escolar mas, amanhã, não encontrando emprego, apenas lhes restava o tempo livre.

Não possuindo nada para preencher esse tempo livre, fariam toda a espécie de disparates, desde o suicídio até o assassínio dos outros.

V.M. – O tempo livre é assim tão pernicioso?

A.S. –
O tempo livre, quando não se enche com coisa nenhuma, torna-se absolutamente insuportável, destruindo o indivíduo por completo.

É a razão porque morre tanto reformado já que, deixando de ter o seu emprego, se não encontrar novos objectivos na vida, a morte seguir-se-á rapidamente.

O facto de haver desemprego no Mundo é como o fermento que entrou na massa e faz o verdadeiro pão comido hoje por todos nós. A existência de desempregados irá obrigar o Mundo a prover os indivíduos das artes e das ciências de forma a permitir-lhes serem livres e criadores no tempo livre, assumindo na vida uma atitude completamente diferente, seja qual for a especialidade escolhida.

As coisas vão mudar nesse sentido.

V.M. – Qual a relação do banquete do Espírito Santo, de que falou, e o Canto IX de Os Lusíadas?

A.S. – Essa é a profecia de Camões, expressa na Ilha dos Amores. Através dessa história do fenómeno, ao mesmo tempo que o homem está atento ao fenómeno ele será capaz de pensar fora do Tempo e do Espaço, de se elevar à Eternidade.

Embora use algumas imagens da Mitologia greco-latina, Camões manifesta-se realmente apostado em algo mais importante, sendo esse algo mais importante o Divino que não se multiplica, que não é vários mas Ele, o fundamental do Universo, para nós impossível de definir nos termos próprios.

Somente o definimos com aquilo que nos é inteligível e necessário, afinal o nosso amparo na vida, pois seja qual for o nome dado ao Divino ele apenas consegue tornar a situação ainda mais difícil porque, diante do Divino, só o silêncio é capaz de o exprimir.

Sobretudo, não nos sendo possível imaginar o futuro da Humanidade, é conveniente assumir a humildade externa e interna capaz de levar a pessoa a sentir-se mais nada além de um clarão do Divino.

Um clarão do Divino e nada mais.

V.M. – Mas existem futurólogos, fazendo previsões.

A.S. – Só conseguimos imaginar o futuro da Humanidade presos dentro da mecânica conhecida mas ela pode mudar completamente.

Repare no movimento das galáxias, afastando-se umas das outras a uma velocidade cada vez maior à medida que se torna maior a distância entre elas. Ao atingirem a velocidade da luz ninguém mais consegue saber o que é feito das galáxias…

Também nós, devido ao progresso contínuo da Humanidade, considerado por toda a gente cada vez mais rápido quando se lembra a vida de há dez, vinte ou trinta anos atrás, consideramos ter andado o chamado progresso a uma velocidade extraordinária.

Quem sabe se esta lei não é a mesma das galáxias?

Quem sabe se não estamos a avançar com velocidade cada vez maior e, a certa altura, não ultrapassaremos a possibilidade de imaginar, podendo haver uma Humanidade futura sobre a qual não podemos fazer nenhuma ideia?

Quando falamos no progresso apenas podemos ajustar, cada vez mais, as nossas vidas pobres, pequenas, mesquinhas e limitadas, arranjando o melhor possível aquilo que não é inteiramente bom.

Mas quando tudo for, se for, inteiramente bom como iremos imaginar qualquer espécie de arrumação?

V.M. – Outro dilema, sem dúvida?

A.S. – Camões, porque os portugueses fizeram no Mundo uma Terra e fizeram o Mar, incita-nos a tentarmos fazer, agora, o Céu aberto na Terra e deixarmos andar, para vermos o que é que a Máquina Interna do Mundo é capaz de nos trazer.

Espero que Portugal cumpra isso e, quando falo de Portugal, não falo só do Portugal da Península mas falo do Portugal no Mundo.

V.M. – No Portugal da língua portuguesa?

A.S. –
Quando se cita Fernando Pessoa, e se diz que a Pátria é a língua portuguesa, temos de compreender que ele afirmava isto a respeito do português aprendido depois de regressar da África do Sul, principalmente a propósito das mudanças ortográficas de 1911.

Podemos colocar, agora, a questão de outra forma, da maneira como ele gostaria que se colocasse: quem fala a língua portuguesa, onde se fala a língua portuguesa, quem se interessa pela língua portuguesa.

Mesmo não tendo nascido em nenhum território onde, oficial ou nativamente, se fale o português o indivíduo pode ser português. Quando vejo um inglês muito interessado por Fernando Pessoa ou um francês muito interessado por Camões, eles estão interessados em quê? Estão interessados pela Pátria da língua portuguesa e mostram que gostariam de ser nativos dessa Pátria.

Então é um Portugal a multiplicar-se pelo Mundo.

Está, por exemplo, dentro de outra «península ibérica», a que ocupa a chamada América Latina, com uma posição até melhor, devido ao tamanho do território, daquela existente no lado de cá do Atlântico. E a colaboração dessas duas penínsulas já deu rebentos na África e no próprio Pacífico, até no Índico, com Moçambique.

Deverá esse Portugal, tão diferente de região para região, ser atentamente pensado, pese embora constituir-se como um problema para os políticos, principalmente quando a gente se lembra que Manuel Bandeira considerou, certo dia, ser todo brasileiro um português à solta.

V.M. – Eu próprio sinto-me um prisioneiro no meu país.

A.S. – Parece ser esse o pensamento de Manuel Bandeira e, se o português tem de ir para o Brasil para ser um português à solta, é porque há reformas necessárias e urgentes a fazer, para Portugal deixar de ser uma cadeia.

Portugal tem, todo ele e em todas as partes do Mundo, de rumar para uma liberdade em que o Homem se possa interessar pelo aspecto dos fenómenos para si mais atraentes, seja da Física, seja da Pintura ou da Mística, sentindo-se atraído, simultaneamente, para o intemporal e para o não-espacial.

Por isso me parece serem Os Lusíadas, para além de um poema narrativo, histórico e épico – por relatar acções heróicas – também um poema profético, tendo Camões uma ideia do heróico muito curiosa.

Por exemplo, é heróico Afonso Henriques quando diz a Deus «que estais vós a animar-me a mim? Ide pregar aos infiéis»; ou a pobre Inês de Castro, abatida pela razão de Estado quando, para ela, o que imperava era o afecto e lá aguenta aquela morte como pode.

Camões mostra esse Povo heróico na Terra e heróico no Mar, também capaz de heroísmos no Céu.

Nesta situação, costumo lembrar-me do monumento aos Descobrimentos que está virado para o Tejo, junto do Mosteiro dos Jerónimos, no qual podemos ver aquela gente a elevar-se da Terra como se elevou Portugal. Eles vêm do solo, vão subindo por aquelas duas rampas, vão a caminho já do Mar e, subitamente, param.

Não há mais nada porque falta construir o resto da rampa.

Falta continuar o resto dessa rampa que iria chegar, espero que vá chegar, ao que nós chamamos Céu e que seria o verdadeiro destino de Portugal.

Mas chegar ao Céu não é ir, como os americanos e os russos, instalar fábricas no espaço.

V.M. – Haverá possibilidade de continuar a rampa?

A.S. – Espero que sim, pois fizemos coisas mais difíceis do que Ser. O que existe de mais fácil à pessoa é Ser, só que o terrível são as circunstâncias que, à volta dela, a impedem de Ser.

V.S. – Essas circunstâncias poderão ser afastadas?

A.S. Havia uma tribo no Amazonas que gostava das crianças com a cabeça cúbica e, quando elas eram pequenas, punham-lhes umas talas na cabeça para obrigá-las a crescerem cúbicas.

Afinal de contas, é o que sucede a todos nós, pois no fundo, a nossa cabeça é cúbica visto as circunstâncias externas obrigarem a isso. Mas quando a Sociedade não nos colocar as suas talas, para nos impedir o crescimento normal, será possível que cheguemos ao mais pleno de nós próprios.

Então aí, como cada homem nasce diferente mesmo em cinco biliões de homens, teremos possivelmente uma pluralidade extraordinária no Mundo e faremos algo quase impossível de fazer hoje, que é amarmos a diferença.

Ainda gostamos muito de amarmos as semelhanças, damo-nos muito bem com aqueles que se parecem connosco, quando o nosso gosto também devia ser por aquilo que é diferente.

Quando se diz ter sido Camões um platónico, e isso mostra-se bem quando ele afirma atingir-se a beleza geral através da particular beleza, digo sempre existir aí um defeito por ele não nos referir o que acontecia à fealdade particular a conduzir-nos, tanta vez, à fealdade geral.

É necessário, igualmente, pôr esse ponto: ver no diferente o que existe de fundamental e dirigirmo-nos a esse fundamental.

Só quando o homem se dirigir ao seu fundamental é que se cumpre (Conversas com Agostinho da Silva, Pergaminho, 1994, pp. 95-109).

 

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