Agostinho da Silva, Portugal, a Europa e as comunidades portuguesas.

Agostinho da Silva entrevistado por Vítor Mendanha, uma interessantíssima entrevista, na qual fica bem explicito o pensamento do nosso grande pensador em relação à Europa.Foto de Alexandre Sarmento.

«Victor Mendanha – Portugal entrou para a Comunidade Económica Europeia, facto apoiado por uns e criticado por outros. Como vai a Europa de saúde?

Agostinho da Silva – A Europa, com tudo quanto fez, dando tanto instrumento ao Mundo e tendo Portugal transportado grande parte desses instrumentos para toda a Terra, está esgotada. A Europa esgotou-se, fisicamente, porque levou toda a sua vida a realizar coisas, a pesquisar para saber, a saber para prever e a prever para poder. Mas as pessoas, a maior parte das pessoas do Mundo – isto acontece com oito em dez homens – não são dessa zona europeia ou euro-americana.

Toda essa gente possui outros ideais que não são os do Poder sobre os outros nem os do Poder sobre si próprios. Coibindo-se, restringindo-se a um determinado código que lhe impuseram, a sua ambição não é o Poder mas, fundamentalmente, o Ser.

A Europa esgotou-se no Poder e temos, agora, de partir para outra fórmula que é cada homem ser aquilo que é. Para isso há necessidade de mudar, muitas vezes, as próprias estruturas do Homem e é para isso que estão a avançar as ciências técnicas e médicas. Temos de avançar para modificar, radicalmente, todas as circunstâncias em que até hoje tem vivido o Homem.

V.M. – Poderia o Homem ter vivido de uma outra forma?

A.S. – Não existia outra maneira de viver. Era esse o trajecto que havia para cumprir mas, agora, temos à nossa disposição o saber científico e as técnicas necessárias para modificar tudo isso e modificá-lo radicalmente, dando a liberdade a todo o homem de ser aquilo que ele tem de ser: um criador sem nenhuma espécie de inibição.

V.M. – Será verdade, então, que a Europa já deu tudo o que tinha a dar, como muitos afirmam?

A.S. – Deu o que tinha a dar e deu muito. Todos aqueles instrumentos fundamentais que Portugal levou ao Mundo, nos séculos XV e XVI e ainda, depois, em virtude da emigração, tudo isso foi fundamental para que o Mundo se conseguisse entender.

O Direito Romano renascido é a linguagem que todo o Mundo tem de usar para se entender e se entender até num sentido: modificar esse Direito Internacional de tal maneira que se adapte às culturas de cada homem. Estamos, a cada passo, a assistir a um conflito entre o Direito Internacional existente e a cultura de cada povo frequentes vezes muito diferente.

Esse Direito foi-lhe imposto pelos portugueses, nos séculos XV e XVI, mas é evidente que terá de ser modificado.

Levou-se a essa gente uma economia de trabalho bastante dura, estrita, que escravizou praticamente todos os homens, quer eles fossem tecnicamente escravos quer não, mas necessária à construção das estruturas fundamentais do dito Mundo.

No entanto, nós, hoje, dispondo do automático e da informática, estamos a avançar, cada vez mais e de uma forma inteligente, para a possibilidade de transformar tudo isso e de irmos, a pouco e pouco, criando o lazer, as horas livres, aquele ócio tão necessário para que as qualidades do Homem possam agir espontaneamente.

Por outro lado, juntamente, nós levámos a essa gente uma disciplina de ideologia, uma disciplina de religião, uma disciplina de pensamento transcendente que, muitas vezes, chocou com o pensamento transcendente de outros povos e que tem, evidentemente, de se modificar.

V.M. – Como poderão os portugueses contribuir para esse tipo de mudança?

A.S. – Os portugueses levaram a Europa ao Mundo mas, agora, todos aqueles que falam a língua portuguesa, têm o dever de trazer o Mundo à Europa.

E espero que tragam esse Mundo tão diferente da Europa, que não deseja aniquilar a Europa como muita gente supõe mas, isso sim, humanizar essa Europa, restituir-lhe aquela força interior e aquela capacidade de imaginação por ela perdida por só imaginar num determinado sentido, por se restringir a um certo campo.

V.M. – A nossa entrada para a Comunidade Económica Europeia é tida, por alguns, como um verdadeiro malefício para a cultura portuguesa, capaz de permitir a sua dissolução na cultura de outros povos mais poderosos. Qual é a sua opinião sobre isto?

A.S. – A minha opinião sobre este assunto é a mesma que deve ter tido o homem que, pela primeira vez, afrontou um cavalo: também ele pensou que o cavalo, com um coice apenas, o poderia inutilizar para sempre. Mas esse homem achou que não, que a única coisa a fazer era inventar a arte da equitação, montando o cavalo.

Ficar triste com os malefícios que a Europa pode trazer é uma atitude de fraqueza, a qual não desejo nem pensada nem falada.

O que tem de haver é uma atitude de força e, digamos, de boa “agressividade” impondo o que Portugal e o mundo português tem, para que essa Europa se restabeleça, pois vamos ser médicos e enfermeiros da Europa ou não seremos nada.

V.M. – E as nossas relações com a Espanha, no contexto da Comunidade Económica Europeia?

A.S. – Se tivermos por objectivo rever toda a História de Portugal, inclusive a sua fundação, é evidente que esse mesmo princípio terá de ser revisto. Não é mais possível, daqui por diante, um afastamento de Portugal em relação aos outros povos da Ibéria peninsular da mesma forma como isso aconteceu da outra vez.

É evidente ter de manter cada povo a sua individualidade, cada país ou cada Estado tem de ser muito bem definido e muito bem limitado, mas torna-se completamente impossível praticar, entre as culturas, os divórcios havidos na História de Portugal até agora.

Temos de entender todas as culturas da Península e teremos de compreender todas as culturas desses povos, a partir daqui, a entrarem numa obra conjunta.

V.M. – A recente visita do Presidente da República do Brasil terá a ver com os planos portugueses na Europa e poderá significar uma aliança tácita connosco nessa acção?

A.S. – A visita do Presidente José Sarney indica precisamente isso. É a oferta de que o Brasil poderá estar connosco e tenhamos a certeza de que, deste modo, não é apenas o pequeno Portugal, julgado por muitos fraco e pobre, a entrar na CEE, pois entra o Brasil também.

Recordemos que toda a Comunidade Económica Europeia, e muitos outros países da Europa, cabem no Brasil à vontade, e que é só uma questão de os ir recortando e colocando, direitinhos, no mapa para se verificar caberem todos lá. A viagem de uma ponta à outra do Brasil poderia levar-nos de Lisboa a Moscovo, ou ainda mais longe.

Com o Brasil connosco não vamos ter qualquer espécie de receio na Comunidade Económica Europeia, uma Organização inútil, doente, que não se entende, que dificilmente resolve os seus problemas pois levou anos, até, para saber qual deveria ser a cor do passaporte europeu.

V.M. – A que se deve semelhante situação?

A.S. – A Comunidade Económica Europeia encontra-se, continuamente, em desacordo consigo própria pois trata-se de pequenas nações provincianas a tentarem agregarem-se numa Nação grande.

Nós, que fizemos o Brasil, sabemos o que isso é há muito tempo, há centenas de anos. Além do mais a CEE não é a Europa, como se costuma erradamente dizer, mas apenas o departamento económico da Europa. Qualquer departamento económico deve ser, sempre, secundário porque o que devemos ter é uma Europa onde a economia seja o sustento mas nunca o objectivo.

V.M. – Há povos mais iguais do que outros. No entanto, o povo português é muito especial, com grandes virtudes e enormes defeitos. A que se poderá dever essa característica?

A.S. – A que se deve não sei, já que ninguém decifrou ainda o mistério fundamental do Mundo. Mesmo os grandes matemáticos, os grandes homens da ciência vão, sempre, chocar com o mistério quando tentam definir o Mundo. Para essa pergunta não há forma racional e positiva de responder.

O que se pode dizer é que os portugueses aparecem, efectivamente, com uma característica diferente, muito diferente da dos outros povos. É um ser a albergar em si, tranquilamente, variadas contradições impenetráveis, até hoje, ao racionalizar de qualquer pensamento filosófico.

O homem português comporta-se, exactamente, como se tivesse ao seu dispor um molho de chaves tendo de empregar cada chave na fechadura própria e não, como sucede com muitos outros povos, apenas uma chave com a qual pretendem abrir todas as portas…

V.M. – Como poderá, então, o homem português aproveitar a sua maneira de ser?

A.S. – Torna-se necessário que o homem português alargue, ao máximo, as estruturas interiores e as circunstâncias exteriores para que esse alargamento, dessa tal característica de possuir todas as características, possa agir.

O português, em situações difíceis, aparece como capaz de apresentar uma solução de que ninguém se tinha lembrado e perante a qual os outros povos até recuaram, por parecer não existir qualquer espécie de solução.

Do português há a esperar tudo e haver um povo no Mundo do qual tudo há a esperar parece-me ser uma coisa extraordinária. Pegando num tema da moda, nós diríamos que o extraordinário de Fernando Pessoa não foi ele ter feito poesia sendo Álvaro de Campos ou sendo Caeiro ou, ainda, outros sujeitos bem diferentes. O extraordinário de Fernando Pessoa foi o facto de se tratar de um indivíduo imprevisível.

Gostaria muito que o Povo português se especializasse no imprevisível».

«Conversas com Agostinho da Silva» (1994).

Artigos recentes

Comentários recentes

Arquivo

Categorias

Meta

Alexandre Sarmento Written by:

Be First to Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *